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Viagem de 46 dias nos EUA
 

No ano de 2004, estive durante 46 dias nos Estados Unidos. Fui para lá a trabalho, para prestar um serviço com cães. Embora não fosse uma missão voltada ao esporte, e muito menos ao esporte do qual sou apaixonado – o SchH (tive a oportunidade de ver o treinamento somente uma noite, durante toda a viagem), tomei contato com uma enormidade de cães e seus proprietários, com lojas, com a legislação e com os serviços, entre outras coisas. Gostaria de relatar a vocês um pouco do que vi, e algumas conclusões a que cheguei sobre a cinofilia americana, com base nesta viagem e no conhecimento anterior que tinha. A maior surpresa (e decepção também) foi constatar que, de maneira geral, as minhas expectativas não foram superadas em quase nada.

As Raças
Para minha surpresa, o número de cães mestiços e vira-latas é tremendamente maior do que o número de cães puros (estou supondo que esses tivessem pedigree). O americano, de maneira geral, adora fazer uma bela mistura para ver o que vai dar (!?). Os mestiços representam a maioria dos cães. Em seguida vem o Labrador, o Golden e outros de caça. Na seqüência, vem os cães pequenos. Das nossas raças de trabalho, quase só vi Pastores Alemães e Rotts; uns poucos Boxers. Vi também alguns poucos Pits e Borders. Os abrigos de cães são em grande número. Eles fazem um serviço muito eficiente. As propagandas para adoção são muito fortes. O número de cães adotados é enorme.

A Educação
Aqui tive outra grande surpresa. Os cães, embora não agressivos, são muito mal educados. Isto porque os donos educam muito mal seus cães e também porque as outras pessoas não colaboram em nada.

  • A exemplo do que vi comumente na Alemanha, onde donos deixavam seus cães nas portas das lojas, que os aguardavam tranqüilamente até que eles retornassem das compras, e os transeuntes os ignoravam, em total respeito a estes cães, fui tentar fazer isso (já que eu estava com um cão bem educado) e por diversas vezes percebi que era quase impossível. As primeiras pessoas que passavam logo paravam e ficavam chamando o cão. Os seguintes se abaixavam e batiam no chão. Se o cão não se aproximasse, eles iam até ele para agrada-lo. Finalmente, eu vi gente chegar até o cão e puxa-lo pela guia para que se aproximasse, afim de agrada-lo.
  • Como de maneira geral os cães não são educados para andar na guia, quase todos os donos tem uma guia retrátil. Quando o cão é pequeno, fica fácil puxa-lo de volta. Quando o cão é grande, parece uma seção de esqui aquático.
  • Nas praias, os donos soltam os cães e saem andando; o cão sai correndo e só retorna quando quiser. Como as praias são estrategicamente protegidas do contato com a rua, não há acidentes, mas em geral é uma bagunça total.
  • Andando de carro é outra desordem. Os cães ficam soltos e caminhando pelo carro. Se bobear, tem cão que até dirige o carro!
  • Apesar das multas serem pesadas, tem muita gente que não limpa as fezes de seus cães em locais públicos, principalmente naqueles menos expostos.
  • O uso da guia é a mesma coisa. Muita gente sai com o cão solto apesar das leis e das multas.
  • Muitas casas não tem cercas e os cães geralmente são mantidos na corrente (ou presos num fino cabo de aço). Quando há cerca (lá as casas não tem muros, pois quase não há assaltos), ela é bem baixa. À noite, o cão permanece dentro da casa.
  • É muito raro ver um cão agressivo (fora de controle). Quase não se treina cães para morder pessoas e, quando isso acontece, é treinamento especializado com conhecimento profissional (pagar multas até que as pessoas se sujeitam, mas quando se fala em cadeia ninguém se arrisca).

O Estado e as Leis
A mim me pareceu que, em relação aos cães, o estado americano é muito responsável; cumpre seu papel à risca. As leis existem, as placas podem ser encontradas em vários locais. Por exemplo, em Montana, uma pequena cidade onde estive por 2 semanas, tinha placas que diziam: "Cães podem transmitir doenças. Recolha as fezes do seu cão e o mantenha na guia. A desobediência dessas regras pode levar a uma multa de até U$ 300,00".

Nas praias da Califórnia (costa do Pacífico, onde estive), existem placas também regulamentando o uso da guia e recolhimento das fezes. Existem partes da praia onde é permitido a presença dos cães, e em toda a extensão das praias existem sacos plásticos (para recolher os dejetos) e cestos de lixo. Alguns parques públicos tem áreas reservadas aos cães. Ao departamento de policia é reservado um setor de controle dos animais. Trata-se de um serviço muito eficiente. Todos os proprietários são obrigados a registrar seus cães no município.

Os Pet Shops
Existem duas principais redes que dominam o mercado: a PetCo (www.petco.com) e a PetStmart (www.petsmart.com). São lojas bem grandes, embora pouco menores que alguns Mega-petshops brasileiros. Os produtos são semelhantes aos nossos, muita baboseira e futilidade, equipamentos de "adestramento" para resolver os problemas dos cães mal educados (na verdade, do dono preguiçoso). Encontra-se os colares eletrônicos e outros equipamentos, porém os de marcas desconhecidas, mais simples, para resolver problemas comportamentais. Também encontra-se livros de adestramento, somente os bem básicos, que falam sobre educação básica e adestramento simplificado, guias (geralmente uma de nylon encontrada em todos os cantos do país), colares de todos os tipos (até os importados) e brinquedos de todos os tipos (menos aqueles realmente úteis ao treinamento de cães). Existem também as pequenas lojas (são poucas), que em geral vendem produtos semelhantes. Infelizmente, é a cultura do "fashion" e do fútil que prevalecem.

As Revistas e os Livros
As revistas e os livros somente são encontrados nas grandes livrarias (que se localizam nos raros Shopping Centers) e nos Pet Shops. Ao contrário do que eu imaginava, não é nada fácil encontra-los. Nos supermercados, lugar mais comum de se encontrar revistas, não há revistas de cães. A única forma de encontrar material técnico é através da Internet e reembolso postal. Fora isso, somente material destinado a educação básica e a resolução de problemas comportamentais. A maior decepção que tive foi ter encontrado, em uma grande livraria, uma revista somente sobre cães da moda, que com certeza faz muito mais sucesso do que qualquer literatura útil. O que vi em todos os cantos são as revistas especializadas em caça e, portanto, artigos técnicos sobre cães de caça. O americano é um verdadeiro bárbaro nesse assunto. Eles simplesmente adoram matar animais (muito mais que os alemães).

As Escolas de Adestramento
Tive a oportunidade de visitar uma escola de adestramento, graças ao fato de ter conhecido um brasileiro que trabalha lá, Sandro (que agora é um grande amigo e participante desta lista). Ele é treinador de cães e reside nos EUA há 5 anos. Segundo ele, a maior parte das escolas trabalham com adestramento básico e resolução de problemas comportamentais. O maior problema que eles enfrentam, muito semelhante ao que acontece por aqui, é levar o proprietário do cão a freqüentar as aulas e "meter a mão na massa". Lá também o cão retorna para a escola, com o dono alegando que ele não está obedecendo nada. A diferença é que lá o dono paga a segunda época sem reclamar.

Os Clubes, provas de trabalho e equipamentos técnicos
Para quem pretende ir para lá, a melhor opção é fazer contato prévio através da net. Chegando lá, é muito difícil fazer algum contato. Para nós que gostamos da cinofilia européia, e especificamente do Schutzhund, temos que entrar num mundo de poucos. Se não for assim, é quase que impossível encontrar esse povo por lá. Pelo que sei, são ao redor de 10.000 praticantes espalhados por um país de mais de 250.000.000 habitantes (isso representa cerca de 0,004% da população, contra 0,000005 % no Brasil). As principais entidades de trabalho são o USSC, a DVG América, a AWDF e os clubes especializados de filosofia européia. A grande força da cinofilia americana é, sem nenhuma dúvida, o AKC (American Kennel Club), entidade pautada num estilo de cinofilia completamente diferente do estilo europeu. Eles têm um calendário próprio, com grandes shows de beleza para todas as raças e as provas de trabalho (não há a seção de proteção) onde participam todas as raças. Essas provas não são especificas para raças ou grupos de raças. São provas ecléticas. A mim, nada me agrada, pois eles ditam normas sobre raças criadas por outros povos e degradam a genética comportamental dos cães, baseados na incapacidade dos proprietários dos animais.

Conclusão
Embora esse texto seja um pouco crítico, meu objetivo é que possamos refletir um pouco mais sobre a cinofilia mundial e trilhar caminhos mais acertados.

 

© 2005-2009 Rogério Sandoval Silveira - TODOS OS DIREITOS RESERVADOS