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Trabalho de Base
Percebendo a dificuldade de algumas pessoas em
compreender o treinamento a ser realizado com cães jovens, resolvi escrever esse texto.
Quando iniciam o treinamento, todos já querem ensinar ao cão os exercícios
corriqueiros, mas há algo fundamental que deve ser trabalhado exaustivamente bem antes de
se iniciar qualquer treinamento.
Cão e condutor devem brincar em total harmonia e
sem nenhum conflito. Isso é algo muito difícil de se aprender, mas com toda a certeza,
é o mais fundamental em todo treinamento. É sobre isso que vamos tratar aqui. Basta ver
a forma que o cão e o condutor brincam, que você já pode deduzir como é a seção de
obediência deles. Além de auxiliar na obediência, esse trabalho vai ajudar muito no
serviço de proteção, ensinando o cão a morder com força e estabilidade, além do
aprendizado de relaxar entre os braços do condutor.
O Brinquedo Ideal
É aquele que auxilia a estabelecer o melhor
vínculo entre cão e o condutor. Quanto mais fácil o manuseio, melhor. Geralmente, nós
utilizamos uma bola presa a um cordão (ver foto). Através do cordão você pode
estabelecer vinculo ao brincar com ele. Com um brinquedo sem cordão ou alça isso não é
possível.
Pode-se utilizar também, uma salsichinha de mordida ou um rolete
(feito em tecido de juta, com uma alça na ponta). O brinquedo deve ter um tamanho que
possibilite ser escondido facilmente. Deve surgir de dentro de você num passe de mágica
e voltar para dentro do seu corpo (sumir), da mesma forma.
Forma Correta de Brincar
Esta é a grande dificuldade. A maior parte das
pessoas utilizam os brinquedos incorretamente. Não basta utilizar um brinquedo no
treinamento, deve-se utiliza-lo corretamente.
O uso incorreto gera vários problemas, dentre
eles:
- Dependência do brinquedo (quando ele não está presente, o
impulso do cão cai).
- Conflito entre o condutor e o cão (o cão aprende que se retornar
ao condutor, vai perder o brinquedo), gerando falta de velocidade no retorno,
instabilidade da mordida, quando consegue o brinquedo, foge do condutor, problemas no
"larga", dentre outros problemas.
- O cão aprende a trabalhar pelo brinquedo e não pelo condutor.
- Falta de foco ou foco errado (o cão aprende a olhar para o
brinquedo e não para o condutor).
Para conseguir morder a bola e lutar por ela, o
cão jovem já deve ter certo tamanho e musculatura proporcional ao esforço. No período
anterior, pode-se utilizar trapos de roupa e o filhote deve aprender a morder com força
para posteriormente conseguir sustentar a mordida na bola.
Promovendo o Impulso
Para poder "impulsionar" o cão, é
preciso saber mover o brinquedo corretamente. Pode-se iniciar as brincadeiras sentado ao
chão, fazendo a bola passar por baixo das pernas, por cima, por trás do nosso corpo, por
trás do cão, batendo no chão, sumindo e aparecendo novamente. Os movimentos são
alternados entre breves paradas e quando o cão se interessa, a caça (bola) foge
rapidamente. O cão visualiza a bola, a persegue e no limite de ser pega, ela foge, quase
que frustrando-o.
É preciso algumas vezes, que o cão consiga
captura-la, antes mesmo que ela fuja. Neste inicio, o cão estará focado a bola, se
interessará somente por ela e com o tempo, vai percebendo que estamos por trás dela e
que para que a brincadeira prossiga, ele depende de nós. Além de promover o impulso,
durante este trabalho, estamos também exercitando as habilidades motoras dele. Aumentando
as dificuldades, auxiliará muito também na promoção do impulso. O cão deverá ser
estimulado a passar por baixo de nossas pernas, por cima delas, podemos criar barreiras
tentando afasta-lo da bola com nossa outra mão (fazendo com que ele faça força
contrária), podemos bloqueá-lo segurando a guia. O objetivo é que ele se esforce para
conseguir a bola e não a consiga de forma fácil.
Brincando em Pé
É preciso que aos poucos o condutor se levante e
consiga fazer a brincadeira na altura de sua cintura. Segurando a bola pelo cordão, o
condutor deve posiciona-la parada na visão do cão, não muito próxima. O cão, ao
tentar consegui-la, deve ser frustrado por algumas vezes (cuidado! O objetivo aqui
é que ele se esforce cada vez mais para alcançar a bola. Quando há falta de interesse,
mostra que o condutor se excedeu), com a bola fugindo dele na ultima hora. Imediatamente
após, ela deve estar ao alcance da visão dele, mas por fração de segundos, ao fugir,
deve ter saído de sua visão. Quando falta interesse, a brincadeira pode ser levada
temporariamente para o chão, para que se estabeleça o impulso novamente.
Um problema muito grande é a dificuldade do
condutor aprender a movimentar a bola corretamente e para-la, num alvo certeiro, no
momento exato, para que o cão tente alcança-la. Segurando o cordão, há um movimento de
pêndulo em relação a bola. O condutor precisa ter muita habilidade para conseguir
compensar o movimento com o cordão para manter a bola parada. Eu, pessoalmente, só
consegui isso praticando muito sem o cão.
O Cabo de Guerra
Ao alcançar a bola, o cão tende a lutar para
"rouba-la" de nós. Geralmente, os condutores lutam com o cão, puxando o
brinquedo em sentido contrário. Isso pode gerar passividade (o cão aprende a esperar o
condutor lutar, para somente depois ele começar a reagir), pode gerar frustração (o
cão percebe que ao se esforçar lutando pelo brinquedo, não consegue ganhar terreno
puxando o adversário em sentido contrário), pode gerar instabilidade (o cão
aprender a mascar o brinquedo).
O procedimento correto, após ele ter alcançado
a bola, é somente oferecer resistência, através de tenção do cordão, e assim que ele
começar a puxar, imediatamente deverá ganhar terreno ou conseguir a bola. A brincadeira
deve ser estabelecida de forma onde o CÃO É O ATIVO e o CONDUTOR É O REATIVO. O cão
deve achar que ele está no comando da brincadeira e o condutor deve reagir quando ela for
feita de forma satisfatória. Assim que o cão puxa, imediatamente o condutor cede terreno
(indo em direção ao cão), porém, o tempo todo o cordão deve estar tenso e aos poucos,
a resistência deve aumentar. Podemos acrescentar agressão na brincadeira, batendo no
cão (dando tapas com a outra mão), ou chutando ele (de forma alternada com o peito do
pé ou lateralmente, com o cuidado de não acertar as regiões sensíveis
lembre-se, o objetivo é fazer com que ele lute mais e não machuca-lo), ou simplesmente,
tocando sua cabeça com a outra mão, gerando leve estresse (para que ele reverta em
luta), isso pode ser aplicado também, logo que o cão alcança a bola, para que ele morda
com mais força. Podemos por a nossa mão sobre a face do cão, tapando seus olhos, como
podemos utiliza-la apoiando a mandíbula do cão. O que importa é que a mordida seja
forte e que ele esteja lutando para obter a bola.
Puxar ao Invés de Chacoalhar
É preciso ensina-lo a lutar puxando ao invés de chacoalhando (matando
a presa). Por que? Quando o cão puxa, a mordida é mais forte e permanece estável. Todo
apoio está centrado na mordida, em contraposição ao ato de puxar a caça. Ao
chacoalhar, o cão está dissipando força para os lados e perdendo em potência de
mordida.
Isso é fácil de reverter? Sim, muito fácil. Basta confirmar o
comportamento desejado e não confirmar o indesejado. Se o cão puxa, deixe ele ganhar
terreno ou solte a bola na boca dele. Se ele chacoalha, não ceda, até que ele mude o
comportamento. Quando o cão não apresenta o menor sinal de luta, simplesmente morde e
fica parado segurando a bola, podemos criar uma tenção, puxando o cordão para cima ou
usar um pouco de agressão. Ao menor sinal de luta, devemos soltar a bola para ele,
confirmando o comportamento desejado. Aos poucos, vamos exigindo maior esforço dele.
Devemos também mostrar uma reação fria inicial e esperar a ação dele, para ai
reagirmos.
Ao Iniciar os Treinos
Com o tempo, ao iniciar os treinos, não devemos ter a bola na visão
dele, mas sim guardada em nosso bolso. Ele deverá interagir conosco, para somente assim a
bola poder aparecer. Antes que a bola apareça, podemos empurra-lo, para criar reflexo de
oposição, como podemos também belisca-lo. O objetivo é criar impulso e criar tenção,
e quando o cão estiver interagindo conosco, aí sim o brinquedo aparece entre os braços
(acalmando o cão).
Após ter ganho a bola, guiamos o cão para que ele corra em torno de
nós com a caça na boca e seguramos ele entre os nossos braços (com o cão encostado em
nossas pernas, enquanto a mão direita apoia sua mandíbula, nossa mão esquerda acaricia
suas costelas). É o mesmo procedimento que normalmente utilizamos no trabalho de
proteção. Nesse procedimento, ensinamos o cão a manter a mordida (forte e estável), a
relaxar em nossos braços, a estabilizar seu comportamento e com o tempo, um
"larga" claro e limpo.
Reinicio da Brincadeira
Após ter segurado o cão entre os braços, é hora de reiniciar a
brincadeira. Quando ele ainda não aprendeu o comando "larga", podemos proceder
da seguinte forma para que ele solte a bola. Com a mão esquerda, erguemos ele pelo colar
(sem porém enforca-lo e sem tocar na bola), até que ele solte a bola. A idéia aqui, é
"roubar" a bola do cão, ou seja, se ele bobear, perde a bola. Temos que
estimular sua possessividade. Quando a bola cai no chão, automaticamente estimulamos a
caça, puxando-a pelo cordão, reiniciando a brincadeira. Podemos também chuta-la,
enquanto seguramos o cão pelo colar, para que o impulso se eleve.
Num estagio mais avançado, quando ele já brinca muito bem e sabe
perfeitamente o comando "deita", fazemos ele se deitar e assim ele deverá
soltar a bola no chão. Se já for conveniente, podemos introduzir o comando
"larga", que deve entrar de forma exata, seguido da conseqüente correção
física (pode ser um leve tapa na cabeça dele com a mão esquerda ele
deve sentir, mas não enxergar a correção).
Finalizando o Treino
Com a ajuda de um auxiliar, ao fazermos o cão soltar a bola, enquanto
ele segura o cão, guardamos a bola em nosso bolso e nos afastamos correndo a uma boa
distância deles. Viramos de frente para eles e sem nenhum auxilio visual, chamamos o cão
com o comando "aqui". Permanecemos parado e quando o cão está próximo, nos
afastamos para trás e levantamos os braços para o alto, para que o cão pule sobre o
nosso peito.
Imediatamente devemos tirar a bola do bolso e permitir que ele a morda.
Após uma breve luta, levamos ele para a caixa com a bola na boca. Antes de entrar na
caixa, seguramos ele entre os nossos braços e após uma breve espera, levantamos ele pelo
colar (para que ele perca a bola) e o treino se encerra com ele na caixa.
Outra forma que pode ser realizada. Quando o cão está se aproximando,
podemos abrir nossas pernas e jogar a bola por baixo delas, para que ele em velocidade,
também passe por baixo delas. Temos que porém, evitar que o cão veja a bola antes e que
faça a aproximação focado na bola. É bom sempre lembrar que o foco deve ser o
condutor, que o brinquedo serve para confirmar esse comportamento.
Podemos finalizar também, lançando a bola para que ele nos traga. O
cão deve aprender de forma clara, que lutar conosco é um enorme prazer. Ele deve buscar
a bola o mais rápido possível para poder disputa-la conosco. Ao retornar, estimulamos
para que ele pule no nosso peito, pegamos a ponta do cordão e assim, ele pode lutar. Isso
deve virar um jogo.
Trabalhando o Impulso
Há uma série de formas de impulsionar o cão. Podemos utilizar
várias delas com os filhotes. Uma forma muito simples é a de brincar com a bolinha,
enquanto todos os cães estão presos no canil, ou seja, eles nos vem brincando, porem
não alcançam a bola. Podemos utilizar a caixa de transporte (com o cão dentro dela)
para o mesmo fim, e podemos eventualmente jogar a bola contra a porta da caixa, para
estimula-lo mais ainda.
Outra técnica, é a de atar o cão a uma guia elástica que está
amarrada a um poste, com o bola estimulamos a caça e só permitimos que ele obtenha a
bola após um belo esforço (fazer tração). A bola pode também ser amarrada a uma
linha, atada a ponta de uma vara. Com a vara, podemos dar mais movimento a caça. Essa
técnica pode ser muito bem utilizada com filhotes.
Momento de LIBERDADE (antes de iniciar o treino)
Esse é outro aspecto fundamental no condicionamento de um cão de
trabalho. É a oportunidade que o cão tem de ir ao "Banheiro" para defecar e
urinar. É uma simples questão de disciplina do condutor. Muitos condutores são
indisciplinados nesse aspecto, ou se esquecem de dar essa oportunidade para o cão, ou
permitem que o cão utilize o campo de treinamento como banheiro. Isso cria no cão um
comportamento muito grave, o de urinar e defecar durante o trabalho, fora o fato de fixar
odor em pleno campo de treinamento. Na Alemanha, quando um cão urina ou defeca no campo
de treino, seu condutor paga uma rodada de cerveja a todos os participantes do clube, fora
as gozações.
O procedimento correto é escolhermos um local apropriado fora do campo
de treino e soltarmos o cão por tempo suficiente, até que ele tenha completado suas
necessidades e voltado naturalmente para nós. Eu pessoalmente, para evitar conflitos
futuros no treinamento, prefiro fazer esse procedimento com uma cordinha com cerca de 10
metros, assim, se precisar, posso chamar o cão de volta e estarei evitando que o cão
saia fora do meu controle.
Problemas de Socialização
Um cão com problemas de socialização, vai mostrar dificuldades
durante o treinamento. Socialização e educação devem ser feitas fora do campo de
treinamento. Um cão que sai do impulso, se direcionando para o que acontece fora. Que ao
ver outros cães, quer brigar. Que fica tímido a presença de pessoas estranhas. Que
sente a mudança de ambiente.
Todos esses problemas acabam mascarando o impulso e impossibilitando o
trabalho. Treinar é algo muito diferente de socializar e educar, mas o sucesso do
treinamento depende de uma base muito sólida de socialização e educação.
Algumas Considerações
Não tenho nenhuma pretensão de estar ensinando aqui algum método.
Simplesmente são observações que fiz do contato com grande nomes do treinamento
mundial, do que extrai desses contatos, do que pus em prática e obtive resultados. Estou
com isso, tentando compartilhar um pouco do meu conhecimento.
É lógico que o que vale, é o que se torna realizável e o mais importante, são os
resultados finais, dentro das 4 linhas.
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